Liderança

Primeira contratação de gestão: quando, quanto e como delegar

Guia prático para contratar seu primeiro gestor de operações. Saiba quando é o momento certo, quanto investir, o que delegar primeiro e evite os erros que matam agências em crescimento.

Israel A. Cardoso
Israel A. Cardoso
·7 min de leitura
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Você gasta 15 horas por semana mapeando projetos, respondendo email de providência operacional e ajustando cronograma. Seus criativos reclamam que você fica mudando prioridade no meio da semana. Clientes ligam direto em você pedindo status de tarefas que deveriam estar sendo comunicadas.

Esse é o sinal número um: hora de trazer alguém para operação.

Mas "alguém" não é qualquer um. Essa primeira contratação vai definir se sua agência escala ou fica presa na síndrome do dono que não consegue sair do dia a dia.

Quando você realmente precisa de um gestor

Não é quando você "acha que precisa". É quando seus números gritam que precisa.

Você tem entre R$ 50 mil e R$ 150 mil de faturamento mensal? Ótimo contexto. Mas o real termômetro é: quantas horas por semana você gasta em operação? Se passou de 40%, é hora.

Outro sinal: você cancela reunião de venda para resolver problema de projeto em atraso. Ou você fica acordado à noite pensando em cronograma. Ou os criativos trocam de você porque sentem que estão sendo "gerenciados" por quem deveria estar vendendo.

Por último: você não consegue tirar 2 semanas de férias sem a agência entrar em caos. Não é porque você é insubstituível. É porque ninguém sabe onde as coisas estão.

Se dois ou três desses pontos bateram, é para ontem.

Quanto custa essa contratação (de verdade)

O mercado atual coloca um gestor de operações/tráfego entre R$ 4 mil e R$ 8 mil mensais, dependendo da região. São Paulo sobe mais. Interior fica mais conservador.

Mas tem uma cilada que a maioria cai: contratar alguém mais barato porque "estamos apertados".

Você paga R$ 3 mil em um júnior sem experiência. Ele chega animado. Na terceira semana, descobre que seu fluxo está quebrado. Na quinta, ele tá perguntando como processar uma mudança de escopo.

Você passa 2-3 horas por semana corrigindo. Ao final de 4 meses, você gastou R$ 12 mil + seu tempo em correções. Se tivesse contratado alguém com R$ 6 mil que já resolveu esses problemas em outra empresa, pagaria R$ 24 mil e teria 80% da operação pronta no segundo mês.

O custo não é o salário. É o que você para de faturar enquanto treina alguém que não tá pronto.

O erro clássico: contratar muito junior

Agências adoram contratar estagiário ou primeiro assistente de operações. Justificativa? "É mais barato, aprende rápido, tá com tudo à frente da vida".

O que acontece: você passa de "dono que faz operação" para "dono que treina alguém que tá aprendendo operação".

Ele não sabe como estruturar timeline. Você tem que ensinar.

Ele não sabe como comunicar atraso ao cliente. Você descobre quando cliente liga reclamando.

Ele não entende por que criação não é só criação, é também conceito, alinhamento, ajustes. Você vai explicar isso 5 vezes.

Contratar alguém com 2-3 anos de experiência em operação, mesmo que não seja de agência, muda tudo. Pode ter vindo de SaaS, varejo, prestação de serviço. Pouco importa.

O que importa: ele já instalou Asana (ou equivalente). Já enfrentou projeto que saiu do cronograma. Já comunicou atraso. Já estruturou fluxo. Ele vai chegar, olhar sua operação, e em duas semanas estar tomando decisão. Em um mês, você tira o pé.

O que delegar primeiro (ordem importa)

Você pensa: vou delegar tudo menos decisão final.

Não é assim. Se você delegar tudo no primeiro dia, em duas semanas a agência inteira tá fazendo gambiarra porque ninguém quer te incomodar.

A ordem certa:

Semana 1-2: Agendamento e organização de calendário. Ele pega todos os compromissos, estrutura sua semana, bloqueia tempo de criação, tempo de venda, tempo de estratégia. Você só aprova.

Semana 3-4: Administrativo e financeiro de rotina. Nota fiscal, recibos, controle de holerrite, agendamento de reunião com contador. Não é estratégia, é execução.

Semana 5-6: Gestão de projetos e timelines. Aqui ele começa a sentar com criação, entender prazos, comunicar atraso, estruturar aquela reunião de alinhamento que você nunca tinha tempo.

Semana 7+: Processos de criação. Briefing, aprovações, revisão de conceito. Só depois dele entender como a agência pensa.

Nunca delegar: Estratégia comercial, precificação, decisão sobre novo cliente, corte de cliente. Isso é você.

Se você delegar tudo isso no primeiro mês, em 2-3 meses você descobre que ele assinou cliente por R$ 3 mil que custa R$ 5 mil para entregar.

O erro ainda maior: não documentar antes

Você tá com pressa. Vai contratar o gestor e ensina tudo verbalmente.

Erro mortal.

Quando você fala para alguém como você gerencia projeto, ela ouve uma versão. Quando ela começa a fazer, faz outra versão. Quando você vê o resultado, percebe que não era bem assim.

Documente antes:

  • Fluxo de brief: Como cliente chegou até você? Quem recebeu? Como transformou em tarefas? Quem aprovou?
  • Processo de aprovação criativo: Quantas rodadas? Como você comunica que é final? O que fazer se cliente quer mudar depois de aprovado?
  • Timeline padrão: Um social media post sai em quanto tempo? Uma campanha? Um vídeo? Documentar evita que ele ache que 10 dias é "muito".
  • Como você gerencia cliente atrasado: Ele pediu peça extra? Mudou escopo? Como você comunica impacto no prazo?
  • Como você comunica atraso: Quando você descobre que algo vai atrasar, o que você faz? Avisa antes ou depois? Por qual canal?

Com isso documentado, o gestor não tá interpretando você. Tá seguindo padrão.

Sem isso documentado, você tá ensinando por tentativa e erro. Leva 4 meses para ele acertar no que você faria em 2 semanas.

Delegar não é abdicar

Tem dono que delega tudo e desaparece da operação. Deixa o gestor resolver sozinho, só quer saber de resultado.

Isso é abdicação. Não é delegação.

Delegação é:

  • Treinar: Primeira vez que ele faz (1-2 semanas).
  • Acompanhar: Próximas 2-3 vezes que ele faz, você tá ali.
  • Check-in semanal: 30 minutos vendo o que tá em risco, o que precisa sua decisão.
  • Você continua tomando decisão: Cliente quer mudar escopo? Não é o gestor que diz sim ou não. Ele comunica a você, você decide.

Se você desapareceu, o gestor vai:

  • Dizer sim para tudo para não te incomodar.
  • Não confrontar cliente que tá pedindo o impossível.
  • Deixar projeto atrasado morrer em silêncio.

Sua agência não escala. Só muda de dono que se afoga para gestor que se afoga.

O timing de uma contratação assim

Você precisa de 1-2 semanas antes da contratação para documentar (mesmo que básico).

Você precisa de 4 semanas de acompanhamento intenso depois (check-in diário, não semanal).

Isso significa: escolha período onde você não tá em aula, pitch grande ou planejamento estratégico.

Se você contrata em mês onde tem lançamento de cliente grande, vai estar dividido e tanto você quanto o gestor vão sofrer.

Contratação interna vs. externa

Tem agência que promove criativo senior ou account para gestor.

Pro: conhece a operação, conhece cliente. Contra: criativo que vira gestor muitas vezes sente que perdeu "criatividade". Account que vira gestor perde aquela proximidade com cliente que era seu diferencial.

Se você contratar externo, perde contexto. Ganha objetividade.

Não há resposta universal. Mas se você contrata interno, garanta que ele quer isso. Não é promoção como"ajuda na operação quando sobra tempo". É "você é nosso gestor de operação agora".

Quanto tempo até você sair do dia a dia

Se você contratar certo (senior, documentar antes, acompanhar depois): 2-3 meses.

Se você contratar junior ou não documentar: 5-6 meses, e mesmo assim metade das coisas você ainda faz.

Depois que contratou

Primeiro mês, você tá checando tudo. Normal.

Segundo mês, você começa a ver padrões que ele tá instalando. Aprova alguns, pede ajuste em outros.

Terceiro mês, você faz revisão, não acompanhamento.

Quarto mês, você tá realmente fora.

Nesse tempo, não abandone. Faça check-in semanal. Vire "gerente de gestor", não "dono que sumiu".

E sim, sua vida vai mudar. Você vai ter tempo para vender de verdade. Pensar estratégia. Talvez até tirar aquelas férias de 2 semanas que você não conseguia antes.

Mas só se você contratar certo e delegou com intenção, não por desespero.

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FAQ

Perguntas frequentes

Qual é o faturamento ideal para contratar um gestor de operações?+

Não existe um número mágico, mas a maioria das agências contrata quando atinge entre R$ 50 mil e R$ 150 mil de faturamento mensal. O momento certo é quando você passa mais de 40% do seu tempo em tarefas operacionais que não geram receita direta. Se isso descreve você, é hora de considerar.

Devo contratar um gestor com experiência em agência ou alguém junior que custa menos?+

Junior é falha classicamente cometida. Você vai gastar 3-4 meses corrigindo processo enquanto ele aprende sua operação. Contrate alguém com mínimo 2-3 anos em operação, pode ser de outro segmento (SaaS, varejo, serviços). Experiência estrutural vale mais que experiência de agência.

Quanto devo investir em salário para um primeiro gestor de operações?+

Entre R$ 4 mil e R$ 8 mil no mercado atual (2024), dependendo da região e senioridade. Um júnior sai por R$ 3 mil, mas é armadilha. Invista em alguém que já resolveu problema parecido ao seu. O ROI da pessoa certa em 6 meses paga o salário de 12.

Qual é a ordem certa de delegar tarefas para o novo gestor?+

Comece por: agendamento e organização de calendário → administrativo e financeiro de rotina → gestão de projetos e timelines → processos de criação. Deixe para depois: estratégia comercial, posicionamento, precificação. Isso evita que ele quebre coisas críticas enquanto está aprendendo.

O que devo documentar antes de contratar um gestor?+

Fluxo de briefs, processo de aprovação criativo, timeline padrão de projetos, como você gerencia cliente atrasado, como você comunica atraso. Se não documentar, você vai passar 2 meses 'ensinando' verbalmente e a pessoa sai com visão distorcida. Documento primeiro, contrata depois.

Como faço para não abdicar em vez de delegar?+

Abdição é você sumir da operação. Delegação é você treinar, acompanhar 1-2 semanas, depois fazer check-ins semanais. Você continua tomando decisões críticas, apenas o executivo muda. Se você desapareceu da operação, o gestor vai fazer gambiarra para não te incomodar e sua agência piora.

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Israel A. Cardoso

Founder e CEO do GRUPO ISRL. Antes de criar o método, atuou como COO em agências de marketing, liderando a estruturação de processos e operações que precisavam escalar sem perder o controle. Mais de 6 anos no mercado digital.

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